terça-feira, 23 de junho de 2015

a insustentável virtude da memória.

Uma viagem até Assis, no banco da frente, observando que ‘o céu está mais baixo do que o normal’
Uma reflexão sobre a imensidão do mundo ao som de Arctic Monkeys, depois do pastel da feira de quarta à noite
O desabafo de uma amiga, pegando o caminho da saída da cidade
Dedos batendo no volante, descoordenadamente, acompanhando o piano que tocava no rádio
Uma menina, sempre em paz, dormindo de boca aberta no banco de trás
Uma conversa mórbida com o carro ligado em meio à chuva fina, na frente do condomínio, cortada por um abraço seco
O desespero de uma mãe viajando com sua filha numa maca
O caminho escuro e mudo para o Adeus
A constatação, no caminho de volta da escola, de que moravam na avenida mais bonita da cidade
Revelações implícitas em meio a inúmeras viagens
Um homem chorando copiosamente, parado no acostamento, antes de tomar fôlego e prosseguir a viagem de volta
A decisão de qual faculdade fazer, em plena Marginal Tietê: um olhar de felicidade pura

O que mais importa não é o destino, e sim a estrada.
Aproveite a (absurdamente) boa memória que ainda lhe resta para guardar tais trajetos, tais momentos a portas fechadas.
O que mais importa é a jornada. Com ipês coloridos ou não.

Tenha isso em mente. Sempre. 

quarta-feira, 3 de junho de 2015

M,

Te escrevo hoje por preocupação. Não ache que seja por outro motivo além desse. Nas últimas semanas tenho te sentido diferente. Até poderia usar a palavra ‘distante’, mas só esse termo já acabaria com meu estoque de ironia. Não é mesmo? Aposto que você concorda. Afinal, estamos mais próximos do que nunca, e, veja só, mesmo assim, conseguimos nos separar o máximo possível.
Posso perceber o tempo moldando seu rosto no mesmo ritmo que as minhas olheiras crescem. Consigo notar suas lágrimas contidas, todas elas, e pra cada uma delas compro um maço.
Ultimamente, tenho fumado menos.
É incrível como me importo contigo. A cada pequena tragédia tua, percebo que uma partezinha de mim morre e fica impregnada, fibrosada, sem me abandonar. Me pergunto até quando serei funcional. Me pergunto se algum dia cheguei a ser.
Afinal, por todos esses anos, continuamos em mesmos rumos, em mesmos objetivos, em mesmas promessas. Mas é absurdamente doloroso perceber que esses rumos nunca se cruzam, como somos linhas tão infinitas e tão paralelas.
Essa ideia me persegue há meses, e confesso que foi ela que me motivou a sentar hoje e escrever: deus nos traçou paralelos. Somos retas, infinitas, indefinidas, que nunca se cruzarão. Essa geometria me traz palpitações todas as vezes em que nossos olhares se cruzam, dia após dia. Todas as vezes que te vejo passando e percebo que estou indo para a esquerda, e você pra direita. Todas as vezes que, em meio a esses encontros, nos reconhecemos cúmplices silenciosamente.
É uma pena que nossos breves solilóquios não revelem como você tem passado: sua cor preferida, suas noites indormidas, sua estante, seus porta-retratos. Por isso mesmo te escrevo. Porque apesar de tudo, me preocupo. Não posso afirmar que te admiro, simplesmente porque não te conheço mais.
Espero que me escreva de volta algum dia. E, lá do fundo da minha parte ainda funcionante, espero que ainda goste de vermelho, que ainda leia muito e que, agora, você acredite em Deus. Talvez algum dia Ele mude a disposição das retas das nossas vidas.
Com carinho,

M.