Te escrevo hoje por preocupação. Não ache que seja por
outro motivo além desse. Nas últimas semanas tenho te sentido diferente. Até
poderia usar a palavra ‘distante’, mas só esse termo já acabaria com meu
estoque de ironia. Não é mesmo? Aposto que você concorda. Afinal, estamos mais
próximos do que nunca, e, veja só, mesmo assim, conseguimos nos separar o
máximo possível.
Posso perceber o tempo moldando seu rosto no mesmo ritmo
que as minhas olheiras crescem. Consigo notar suas lágrimas contidas, todas
elas, e pra cada uma delas compro um maço.
Ultimamente, tenho fumado menos.
É incrível como me importo contigo. A cada pequena
tragédia tua, percebo que uma partezinha de mim morre e fica impregnada,
fibrosada, sem me abandonar. Me pergunto até quando serei funcional. Me
pergunto se algum dia cheguei a ser.
Afinal, por todos esses anos, continuamos em mesmos
rumos, em mesmos objetivos, em mesmas promessas. Mas é absurdamente doloroso
perceber que esses rumos nunca se cruzam, como somos linhas tão infinitas e tão
paralelas.
Essa ideia me persegue há meses, e confesso que foi ela
que me motivou a sentar hoje e escrever: deus nos traçou paralelos. Somos
retas, infinitas, indefinidas, que nunca se cruzarão. Essa geometria me traz
palpitações todas as vezes em que nossos olhares se cruzam, dia após dia. Todas
as vezes que te vejo passando e percebo que estou indo para a esquerda, e você
pra direita. Todas as vezes que, em meio a esses encontros, nos reconhecemos
cúmplices silenciosamente.
É uma pena que nossos breves solilóquios não revelem como
você tem passado: sua cor preferida, suas noites indormidas, sua estante, seus
porta-retratos. Por isso mesmo te escrevo. Porque apesar de tudo, me preocupo.
Não posso afirmar que te admiro, simplesmente porque não te conheço mais.
Espero que me escreva de volta algum dia. E, lá do fundo
da minha parte ainda funcionante, espero que ainda goste de vermelho, que ainda
leia muito e que, agora, você acredite em Deus. Talvez algum dia Ele mude a
disposição das retas das nossas vidas.
Com carinho,
M.
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