Você decide para onde ir seguindo o padrão da poeira dos seus livros, seu disco arranha na vitrola. Suas piadas e frases de efeito ecoam pelas mesmas paredes, pelo quarto vazio, dentro de um olhar que espera a pausa, a surpresa, o riso, a indignação. As mesmas referências, as mulheres na sua cama recebendo os mesmos toques. Tudo continua como antes.
Por aqui as coisas também permanecem inalteradas. A náusea é mascarada pelo jejum, o abandono é neutralizado pelo conhaque, a dor precede o gozo. Nada disso é novo pra mim e, ainda assim, todas as noites, eu deito com a sensação de que meu peito é incapaz de segurar tanta dor: esse emaranhado disforme de angústias - minhas suas e das cidades inteiras.
Tenho lutado contra o arrependimento desse encontro - a sucessão de acontecimentos que desponta nessa prosa sem desfecho. Admitir essa mágoa parece profanar momentos em que senti que a intuição me guiava, parece me contaminar com a narrativa que insiste em se repetir: eu, um homem que desaparece e um pedido de perdão nunca verbalizado.
Tenho barganhado com o tempo para que eu consiga seguir sabendo que a caneta irá deslizar no papel e confirmar o que já sei. Seus atos me descompassando, sua inconsequência me tirando o ar, minha presença minguando a cada domingo. Não quero seguir nesse expurgo incessante de sentimentos, a repetição do velho padrão que aplaca a sua, apenas a sua, dor. É muito fácil cair nesse espiral, quase sedutor, porque eu sei quem eu vou encontrar dentro dele.
As dezenas de velas que acendi se derretem no pires, e eu nem sei mais se quero ajuda. Na maioria dos dias, sinto vontade de arreganhar seus cortes e depois beijá-los, costurá-los com minhas mandingas, secar suas lágrimas com as folhas do meu caderno. Parece injusto comigo mesma sentir tanta compaixão por você enquanto eu permaneço na minha rotina de pequenas (e eficazes) autodestruições. Tento equilibrar os pratos e terminar a história, mas o ponto final nunca será meu. As coisas ficarão como antes, sua velha angústia sendo expiada pelas suas palavras - não as que você escreve, mas as que você diz.
Tudo continua como antes. Eu, dilacerada pela história que eu mesma comecei: a mulher que foge de ódios que a perseguem há uma década inteira. Você, tão machucado quanto, no seu eterno retorno particular: o menino abandonado num cesto, sendo redescoberto a cada curva do rio.
Peço ao seu deus para que alguém te acolha e te guarde. Tenho pedido por justiça e por sossego, e é isso que me impede de ser consumida por toda a raiva que você descarregou em mim.
Xangô
ResponderExcluirTu és força em meio à guerra
Teu machado não espera
Pra justiça realizar
No tempo
Tu escreve a esperança
De que quem luta sempre alcança
Mesmo se nas brasas pisar
Na vida
Eu me encontro em sua história
Devo a zambi a vitória
De te ter em meu altar
Na natureza
Tua força se espalha
Diante de suas pedras
Eu me ponho a cantar
Kabecilê xangô