Você está tamborilando os indicadores no volante ao ritmo da música enquanto eu tento te observar sem virar a cabeça. Sinto medo de sugerir algo novo para ouvir - embora você mesmo tenha pedido. Ajudo a entrar na pasta do pendrive que você quer. A cadência preenche o carro e eu tento prestar atenção na letra, mas você não consegue parar de falar.
Você explica a origem daquele tipo de som, conta como achou aquele artista e porquê aquela letra nos pega tanto. Eu não quero saber daquilo tudo antes de escutar o álbum, preferiria ter minhas primeiras impressões sem nenhum prenúncio. Mas, durante o começo da terceira música, eu percebo que você está falando na primeira pessoa do plural. Não como eu "nós dois", mas como eu "nós, jovens, humanos sensíveis, amantes da poesia e cerveja barata".
Dentro daquele carro, somos parte de algo: eu, você, às vezes outro passageiro sonolento. Somos nós. E eu passo a terceira (e quarta) faixa me dando conta de que, naquelas quatro horas, há um sentimento que viaja conosco, pressurizado, cuidadosamente vigiado por mim. Tenho medo de dizer algo que estrague tudo, não quero me mover nenhum milímetro a mais, quero apenas apreciar esse momento.
Percebo, enfim, que consigo falar. Digo o que penso, conto histórias, compartilho minhas descrenças e reclamo que não leio nada há alguns meses. Pois, de fato, somos nós. Próximos, amigos platônicos, escritores e aspirantes a mudadores do futuro. Não há outro contexto em que eu consiga assumir esse papel - tanto na sua vida quanto na minha. Não há coragem suficiente em mim para que isso se prolongue além daquelas quatro portas.
Há algo em você que me intimida profundamente, e há algo em mim que não luta contra isso.
Quando paro de falar, a pasta está quase no fim. Você faz perguntas e parece genuinamente interessado. O pôr-do-sol na ponte para sobre seu rosto e eu sinto minha boca secar quando penso que gosto muito mais de mim quando estou com você.
Não era só sua presença. Era também a minha própria, flutuando sobre a estrada esburacada, que se embalava na batida do rap e dava um recado: eu estou viva.
Você olha brevemente pra mim e dá play na quinta faixa novamente. Eu comento que a música é muito triste e mórbida. Você assente e pergunta se eu conhecia aquela flor, e eu respondo que sim - minha família é uma grande apreciadora do dia de finados. Você ri, desconcertado. Ser intimidada pela sua aura não é um problema, mas há também a ânsia da reciprocidade, o desejo de te causar o mesmo sentimento. O máximo que consigo é o desconforto - mecanismo que usei durante toda essa década.
Passo a última hora da viagem pensando no que te dizer para que você suba no meu apartamento, mas sei que não falarei nada. Irei apenas agradecer, me despedir de longe e voltar a ser apenas "eu". Verei sua silhueta pelos corredores durante a semana e acenarei discretamente.
Anseio pela próxima viagem, até que tudo acontece: minha vida é pontuada por uma perda, e a sua continua como o planejado - como eu sempre imaginei. Só compreendo anos depois o que se passou naquela tarde. O prenúncio. As interpretações. Meus ossos vibrando a cada verso daquelas músicas.
Nós, juntos, assistimos ao meu futuro por meio daquela faixa. Por meio da letra, da sua voz desconfortável contando sobre suas experiências com enterros e cemitérios, e, quando te deram a notícia, sei que você pensou a mesma coisa. Talvez eu precisasse daquele augúrio. Talvez eu precisasse daquele disco embalando o carro antes de viver a maior dor da minha vida.
Depois disso, tivemos outras viagens. Dividimos outras preocupações e usamos a primeira pessoa do plural novamente. Mas, de alguma forma, aquele percurso ficou impresso em mim como se tivéssemos trocado segredos; e eu nunca mais consegui te olhar nos olhos. Nunca mais gostei de mim daquela maneira - tão crua e tão apaixonada.
Hoje entendo o recado, o sinal que procurei por quase dezenove anos e não consegui enxergar quando precisei. A música. Você. Nós. A juventude que eu sempre invejei nos outros, mas não percebi que tinha.
Queria bater na sua porta e te dizer tudo isso. Confirmar se você sentiu o mesmo. Mas envelheci o suficiente para saber que perdi a chance. Se aquele dia foi o prenúncio do pior dia da minha vida; então, posso dizer que ter cruzado seu caminho foi o prenúncio da minha vida toda.
Não moverei um músculo para te ver de novo. Tenho muito medo do que vou sentir, mas penso nesse episódio frequentemente. Penso em você todos os dias. E no que poderia ter sido se eu tivesse continuado a gostar de mim.
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