Não dormia há dias. Talvez porque sentia falta de ficar
sozinho, talvez porque passava o dia ocupado – sendo adulto – e a noite era
sedutora demais pra ficar na cama. Não que as companhias cotidianas fossem
ruins ou sufocantes, só sentia falta da solidão de sua própria mente. Talvez
até da paz.
Naquela noite suas análises nem eram sobre ele próprio –
emprego, dinheiro, a casa nova com jardim, um cachorro não seria demais? – mas sobre
o resto. Ele brincava com seu isqueiro, que mantinha escondido atrás de um vaso
na varanda, respirando o vento úmido da chuva. Não tinha vontade de fumar
(talvez ninguém notaria o cheiro), mas queria tomar alguma atitude para
consigo.
O telefone tinha tocado as dez: era um velho amigo.
Colega, talvez. Ele trocou algumas palavras, agradeceu a consideração por ter
ligado e, desde então, estava ali, sentado no seu velho banco, decidindo o que
faria com a informação.
Com seu clássico sorriso de canto, lembrou-se da mãe, que
sempre o fazia rezar antes de dormir: dizia para rezar pela vó, que estava
doente, pedindo saúde. Seria a solução? Uma batida de carro é considerada nesse
caso de pedir saúde? Talvez deus não fosse assim tão pragmático, tão formal.
Não importava, afinal, não sabia mais como pedir tais graças, – ou consertos –
nem tinha certeza de que acreditava em Tais forças. Talvez devesse orar pelo
seu sono e desistir daquilo. Se lamentar pouco adianta.
Ela havia feito uma ultrapassagem perigosa, às dez da manhã,
naquele mesmo dia. O carro atingiu um caminhão. O motorista passava bem. Não
havia nenhum dano a não ser o dela mesma. O colega havia ligado, com a voz
inalterada, informando-o. Afinal, eram velhos amigos.
Vivia sempre na estrada. Sempre ocupada, sempre dirigindo
de uma cidade pra outra, fazendo o que sabia fazer. Passava pouquíssimo tempo
na cidade, gostava de manter os laços estreitos – mesmo com quem mais amava.
Era feliz. Amava o que fazia, pelo menos. Era uma mulher bem sucedida, dessas
que qualquer machista teria pavor – e os feministas também. Vivia sempre na
estrada. Tudo o que ele lembrava era isso.
Acendeu mais uma vez o isqueiro. Assoprou. Pensou nos
últimos doze meses corridos e conclui que a última vez que se encontraram tinha
sido em abril. Um abraço, os clichês de sempre, as perguntas. Na época, não
havia muitas novidades com ele. Com ela, o de sempre: muito trabalho, tinha conhecido
uma pessoa incrível – seria ótimo se os três pudessem se reunir e conversar
sobre qualquer dessas coisas de gente maluca. Tinha lido um livro ótimo, visto
o último filme daquela franquia que ela amava.
Era daquelas pessoas que sempre têm do que falar, nunca
focava nela mesma. Guardava a atenção pras tragédias – quesito que dominava –
quando elas a afetavam significativamente. Quando seu pai trocou a família pela
bebida, ela comprou uma vitrola e o chamou pra fumar uns cigarros e falou do
ocorrido por dez minutos. Quando perdeu o emprego com que sonhava na
adolescência, pediu conselhos e perguntou como andava a família. Quando seu
irmão morreu, contou de todo o velório rindo, dentro do carro, pois tinha que
ir embora no dia seguinte.
O céu clareou com um raio e ele pôde ver a varanda do
prédio da frente: luzes de natal. O tempo tinha passado e mais uma tragédia
tinha a devastado. Dessa vez consigo mesma, com seu próprio corpo, com sua
própria vida. Ela estava internada numa cidade próxima, com sérios riscos.
Ninguém sabia se iria ver a luz do próximo dia. Um trovão ecoou na varanda, ele
pensou mais uma vez em deus.
Pensou em seus olhos secos, suas mãos sempre trêmulas,
tentando explicar o que sentia com a morte do irmão e seu rosto vermelho rindo
e desviando o assunto. Pensou na chuva fina caindo e o vidro do carro embaçado.
Talvez, naquele dia, ele devesse ter um pouco mais de paciência, talvez não devesse
ter ido embora tão cedo. Ela sempre prosperava perante o caos, ao vazio, mas
uma muralha sempre tem suas rachaduras. E ele havia esquecido as dela.
Desistiu de pegar seu cigarro, fechou a vidraça da varanda,
entrou. Usou o isqueiro pra acender uma vela – havia um pequeno altar com uma
Santa Rita de Cássia na sala. Ouviu um barulho vindo do quarto e, rapidamente,
guardou o isqueiro e o maço de volta no esconderijo. Abriu a porta devagar,
adentrou as cobertas. Sentiu o (ainda pequeno) volume na barriga de sua mulher.
‘Você tava acordado?’ ela perguntou.
Ele fechou os olhos, fingindo um sono que não tinha há dias, sorrindo. Se fosse menina, ele já havia escolhido um nome.
Ele fechou os olhos, fingindo um sono que não tinha há dias, sorrindo. Se fosse menina, ele já havia escolhido um nome.
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