quarta-feira, 22 de julho de 2015

A Morte em três tempos

Ela está entrando no café, procurando um refúgio daquele frio, daquele Inverno. Pensa naquele dia de verão: chovia lá fora, os trovões ocultavam todo o barulho do cômodo, o piano assistia a tudo. Pedira ajuda, queria se livrar do desespero. Entrou, tomou chá, se secou, vestiu as roupas dele. Ele contou de sua vida, da faculdade, do seu luto eterno, da sua antiga família.
O nome da falecida mulher ele nunca mencionou, mas a filha se chamava Catarina. Ou Camila? Ela não lembrava mais tão bem.
Senta-se, pede um café e fica mentalizando aquela noite. Ele desligou a tv e tirou os óculos quando ela entrou. Ela pensou ter visto Mulheres na estante. Teve vontade de perguntar, mas ficou com vergonha (ou era Misto Quente? Era Bukowski?). Quando tirou a camisa dele, viu uma cicatriz grande em seu peito.
Fica pensando naquilo como se fosse a coisa mais importante a se fazer. Percebe que está começando a não se lembrar dos detalhes, dos mínimos, dos sons, do toque.
A única coisa que não tinha mudado naqueles 28 anos era sua (boa) memória. Disso ela não estava disposta a abrir mão.

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-Eu quero que você seja grande, Martina. Sei que você ainda não é crescida, nem nada, mas eu preciso que você se lembre disso, ok? Seja uma mulher extraordinária. Sei que você tem cinco anos, mas não se esqueça. Não seja comum.

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Ele está no aeroporto aguardando seu embarque. Observa todas as pessoas que passam por ele, inventa uma história pra cada uma delas. Entra num café e pede a bebida favorita de sua mulher. É tudo por ela. Seu coração anda acelerado há dias, não sabe se tomou a decisão certa em gastar todo aquele dinheiro numa viagem. As decisões que a gente toma inesperadamente geralmente são as certas. Certo? E se não?

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-Alguma hora a gente vê isso, sabe. Os pais viram pais a partir do momento em que desejam que seus filhos sejam melhores que eles. Eu desejei isso pro seu irmão e desejo pra você. As coisas são mais difíceis ainda pras mulheres – você é nova, mas um dia vai descobrir isso por si mesma. Estude, conquiste a sua independência e não deixe ninguém no seu caminho.

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Olha continuamente o celular. Ninguém vai ligar.
Ele perdeu os poucos amigos que fez durante toda sua vida para a faculdade, a falta de tempo, a residência, a gravidez de risco da mulher. Agora, não havia mulher nem filha. Não havia mais nada – nem dinheiro. Ele nunca tinha sido tão imprudente, sentia medo. Sempre teve boa vida, sempre teve uma poupança para emergências. Mas agora tudo estava zerado.
Era como um aviso, um sinal. Moacir nunca fora bom com intuições.

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Encostada na vitrine, ela olha para o céu nublado e pensa no quanto odeia aquele clima. Estava começando a odiar aquela cidade, aquela atmosfera, toda a História que ela carregava.
Ela nasceu num janeiro sequíssimo, e agora estava empacada no julho mais frio e chuvoso da sua vida.

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-O tempo passou tão rápido, né? Isso porque você ainda entrou na faculdade cedo. Você tem certeza que fez a escolha certa? É mais difícil pras mulheres que seguem essa carreira, você sabe. São mais três anos pra chegar ao seu objetivo, e ainda tem casamento, filhos... Meu maior sonho é ser avô, eu sempre disse. Não que você ainda não tenha conseguido nada. Você conseguiu muita coisa. Mas ainda falta algo. Eu sinto isso. Você não sente? Nem tudo nessa vida é profissão, Martina. A vida vai passar e você vai perceber que algumas coisas não foram normais.
Ainda há tempo.

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Ela paga a conta e sai. Está irritada por ter esquecido aquelas coisas e ainda se lembrar, entre outros exemplos, do rosto de Bernardo morto – ainda que visto de longe. Medicina nenhuma explica aquilo, ela pensa. Medicina nenhuma acha causa da tragédia crônica que era a vida de Martina. Não era a tragédia do tipo que comove, mas a que faz sentir pena. E ela odiava aquilo com todas as forças.

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Ele fecha os olhos e vê Catarina correndo, brincando. Queria que a filha fosse feliz, completa, inteligente. Queria que ela tomasse as próprias decisões, o próprio caminho. Queria que ela fosse feliz, comum, normal. Falta-lhe o ar. Não pode pensar naquilo agora, não ali.
Olha no relógio, vê que está na hora do embarque. E vai.

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-Olha, minha filha, eu achava que esse rapaz seria passageiro na sua vida. Já são quase cinco anos, e nada. Você diz sentir amor onde, aparentemente, há uma coisa estranha que nem sei nomear. Além de tudo ele é engenheiro, não entende a sua área. Não vai entender sua rotina. Tô ficando velho e nunca passei por nada parecido. As coisas eram diferentes antes.
Só quero o melhor pra você.

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Martina decide ir embora. Não há mais nenhum motivo pra ficar: nem a profissão, nem o amor (?), nem Moacir, nem família nenhuma. A vantagem da falta de tudo isso era uma estabilidade financeira que ela não tinha em anos. Iria pegar todo o dinheiro e partir. Procurar qualquer emprego que a agradasse minimamente, ler bons livros, conhecer bons homens.
E de preferência num lugar mais quente.

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Moacir entra no avião, aperta os cintos. Seu peito está pegando fogo. Pensa em Martina e na última noite deles. Pensa em seus espasmos, em seus olhos absurdamente tristes a despeito de qualquer contexto, em suas mãos trêmulas. Fecha os olhos e, sincera e profundamente, espera que seu coração pare naquele momento. 


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