terça-feira, 24 de novembro de 2015

.Mariana

Não dormia há dias. Talvez porque sentia falta de ficar sozinho, talvez porque passava o dia ocupado – sendo adulto – e a noite era sedutora demais pra ficar na cama. Não que as companhias cotidianas fossem ruins ou sufocantes, só sentia falta da solidão de sua própria mente. Talvez até da paz.
Naquela noite suas análises nem eram sobre ele próprio – emprego, dinheiro, a casa nova com jardim, um cachorro não seria demais? – mas sobre o resto. Ele brincava com seu isqueiro, que mantinha escondido atrás de um vaso na varanda, respirando o vento úmido da chuva. Não tinha vontade de fumar (talvez ninguém notaria o cheiro), mas queria tomar alguma atitude para consigo.
O telefone tinha tocado as dez: era um velho amigo. Colega, talvez. Ele trocou algumas palavras, agradeceu a consideração por ter ligado e, desde então, estava ali, sentado no seu velho banco, decidindo o que faria com a informação.
Com seu clássico sorriso de canto, lembrou-se da mãe, que sempre o fazia rezar antes de dormir: dizia para rezar pela vó, que estava doente, pedindo saúde. Seria a solução? Uma batida de carro é considerada nesse caso de pedir saúde? Talvez deus não fosse assim tão pragmático, tão formal. Não importava, afinal, não sabia mais como pedir tais graças, – ou consertos – nem tinha certeza de que acreditava em Tais forças. Talvez devesse orar pelo seu sono e desistir daquilo. Se lamentar pouco adianta.
Ela havia feito uma ultrapassagem perigosa, às dez da manhã, naquele mesmo dia. O carro atingiu um caminhão. O motorista passava bem. Não havia nenhum dano a não ser o dela mesma. O colega havia ligado, com a voz inalterada, informando-o. Afinal, eram velhos amigos.
Vivia sempre na estrada. Sempre ocupada, sempre dirigindo de uma cidade pra outra, fazendo o que sabia fazer. Passava pouquíssimo tempo na cidade, gostava de manter os laços estreitos – mesmo com quem mais amava. Era feliz. Amava o que fazia, pelo menos. Era uma mulher bem sucedida, dessas que qualquer machista teria pavor – e os feministas também. Vivia sempre na estrada. Tudo o que ele lembrava era isso.
Acendeu mais uma vez o isqueiro. Assoprou. Pensou nos últimos doze meses corridos e conclui que a última vez que se encontraram tinha sido em abril. Um abraço, os clichês de sempre, as perguntas. Na época, não havia muitas novidades com ele. Com ela, o de sempre: muito trabalho, tinha conhecido uma pessoa incrível – seria ótimo se os três pudessem se reunir e conversar sobre qualquer dessas coisas de gente maluca. Tinha lido um livro ótimo, visto o último filme daquela franquia que ela amava.
Era daquelas pessoas que sempre têm do que falar, nunca focava nela mesma. Guardava a atenção pras tragédias – quesito que dominava – quando elas a afetavam significativamente. Quando seu pai trocou a família pela bebida, ela comprou uma vitrola e o chamou pra fumar uns cigarros e falou do ocorrido por dez minutos. Quando perdeu o emprego com que sonhava na adolescência, pediu conselhos e perguntou como andava a família. Quando seu irmão morreu, contou de todo o velório rindo, dentro do carro, pois tinha que ir embora no dia seguinte.
O céu clareou com um raio e ele pôde ver a varanda do prédio da frente: luzes de natal. O tempo tinha passado e mais uma tragédia tinha a devastado. Dessa vez consigo mesma, com seu próprio corpo, com sua própria vida. Ela estava internada numa cidade próxima, com sérios riscos. Ninguém sabia se iria ver a luz do próximo dia. Um trovão ecoou na varanda, ele pensou mais uma vez em deus.
Pensou em seus olhos secos, suas mãos sempre trêmulas, tentando explicar o que sentia com a morte do irmão e seu rosto vermelho rindo e desviando o assunto. Pensou na chuva fina caindo e o vidro do carro embaçado. Talvez, naquele dia, ele devesse ter um pouco mais de paciência, talvez não devesse ter ido embora tão cedo. Ela sempre prosperava perante o caos, ao vazio, mas uma muralha sempre tem suas rachaduras. E ele havia esquecido as dela.
Desistiu de pegar seu cigarro, fechou a vidraça da varanda, entrou. Usou o isqueiro pra acender uma vela – havia um pequeno altar com uma Santa Rita de Cássia na sala. Ouviu um barulho vindo do quarto e, rapidamente, guardou o isqueiro e o maço de volta no esconderijo. Abriu a porta devagar, adentrou as cobertas. Sentiu o (ainda pequeno) volume na barriga de sua mulher. ‘Você tava acordado?’ ela perguntou.
Ele fechou os olhos, fingindo um sono que não tinha há dias, sorrindo. Se fosse menina, ele já havia escolhido um nome.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

A Morte em três tempos

Ela está entrando no café, procurando um refúgio daquele frio, daquele Inverno. Pensa naquele dia de verão: chovia lá fora, os trovões ocultavam todo o barulho do cômodo, o piano assistia a tudo. Pedira ajuda, queria se livrar do desespero. Entrou, tomou chá, se secou, vestiu as roupas dele. Ele contou de sua vida, da faculdade, do seu luto eterno, da sua antiga família.
O nome da falecida mulher ele nunca mencionou, mas a filha se chamava Catarina. Ou Camila? Ela não lembrava mais tão bem.
Senta-se, pede um café e fica mentalizando aquela noite. Ele desligou a tv e tirou os óculos quando ela entrou. Ela pensou ter visto Mulheres na estante. Teve vontade de perguntar, mas ficou com vergonha (ou era Misto Quente? Era Bukowski?). Quando tirou a camisa dele, viu uma cicatriz grande em seu peito.
Fica pensando naquilo como se fosse a coisa mais importante a se fazer. Percebe que está começando a não se lembrar dos detalhes, dos mínimos, dos sons, do toque.
A única coisa que não tinha mudado naqueles 28 anos era sua (boa) memória. Disso ela não estava disposta a abrir mão.

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-Eu quero que você seja grande, Martina. Sei que você ainda não é crescida, nem nada, mas eu preciso que você se lembre disso, ok? Seja uma mulher extraordinária. Sei que você tem cinco anos, mas não se esqueça. Não seja comum.

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Ele está no aeroporto aguardando seu embarque. Observa todas as pessoas que passam por ele, inventa uma história pra cada uma delas. Entra num café e pede a bebida favorita de sua mulher. É tudo por ela. Seu coração anda acelerado há dias, não sabe se tomou a decisão certa em gastar todo aquele dinheiro numa viagem. As decisões que a gente toma inesperadamente geralmente são as certas. Certo? E se não?

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-Alguma hora a gente vê isso, sabe. Os pais viram pais a partir do momento em que desejam que seus filhos sejam melhores que eles. Eu desejei isso pro seu irmão e desejo pra você. As coisas são mais difíceis ainda pras mulheres – você é nova, mas um dia vai descobrir isso por si mesma. Estude, conquiste a sua independência e não deixe ninguém no seu caminho.

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Olha continuamente o celular. Ninguém vai ligar.
Ele perdeu os poucos amigos que fez durante toda sua vida para a faculdade, a falta de tempo, a residência, a gravidez de risco da mulher. Agora, não havia mulher nem filha. Não havia mais nada – nem dinheiro. Ele nunca tinha sido tão imprudente, sentia medo. Sempre teve boa vida, sempre teve uma poupança para emergências. Mas agora tudo estava zerado.
Era como um aviso, um sinal. Moacir nunca fora bom com intuições.

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Encostada na vitrine, ela olha para o céu nublado e pensa no quanto odeia aquele clima. Estava começando a odiar aquela cidade, aquela atmosfera, toda a História que ela carregava.
Ela nasceu num janeiro sequíssimo, e agora estava empacada no julho mais frio e chuvoso da sua vida.

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-O tempo passou tão rápido, né? Isso porque você ainda entrou na faculdade cedo. Você tem certeza que fez a escolha certa? É mais difícil pras mulheres que seguem essa carreira, você sabe. São mais três anos pra chegar ao seu objetivo, e ainda tem casamento, filhos... Meu maior sonho é ser avô, eu sempre disse. Não que você ainda não tenha conseguido nada. Você conseguiu muita coisa. Mas ainda falta algo. Eu sinto isso. Você não sente? Nem tudo nessa vida é profissão, Martina. A vida vai passar e você vai perceber que algumas coisas não foram normais.
Ainda há tempo.

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Ela paga a conta e sai. Está irritada por ter esquecido aquelas coisas e ainda se lembrar, entre outros exemplos, do rosto de Bernardo morto – ainda que visto de longe. Medicina nenhuma explica aquilo, ela pensa. Medicina nenhuma acha causa da tragédia crônica que era a vida de Martina. Não era a tragédia do tipo que comove, mas a que faz sentir pena. E ela odiava aquilo com todas as forças.

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Ele fecha os olhos e vê Catarina correndo, brincando. Queria que a filha fosse feliz, completa, inteligente. Queria que ela tomasse as próprias decisões, o próprio caminho. Queria que ela fosse feliz, comum, normal. Falta-lhe o ar. Não pode pensar naquilo agora, não ali.
Olha no relógio, vê que está na hora do embarque. E vai.

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-Olha, minha filha, eu achava que esse rapaz seria passageiro na sua vida. Já são quase cinco anos, e nada. Você diz sentir amor onde, aparentemente, há uma coisa estranha que nem sei nomear. Além de tudo ele é engenheiro, não entende a sua área. Não vai entender sua rotina. Tô ficando velho e nunca passei por nada parecido. As coisas eram diferentes antes.
Só quero o melhor pra você.

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Martina decide ir embora. Não há mais nenhum motivo pra ficar: nem a profissão, nem o amor (?), nem Moacir, nem família nenhuma. A vantagem da falta de tudo isso era uma estabilidade financeira que ela não tinha em anos. Iria pegar todo o dinheiro e partir. Procurar qualquer emprego que a agradasse minimamente, ler bons livros, conhecer bons homens.
E de preferência num lugar mais quente.

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Moacir entra no avião, aperta os cintos. Seu peito está pegando fogo. Pensa em Martina e na última noite deles. Pensa em seus espasmos, em seus olhos absurdamente tristes a despeito de qualquer contexto, em suas mãos trêmulas. Fecha os olhos e, sincera e profundamente, espera que seu coração pare naquele momento. 


terça-feira, 23 de junho de 2015

a insustentável virtude da memória.

Uma viagem até Assis, no banco da frente, observando que ‘o céu está mais baixo do que o normal’
Uma reflexão sobre a imensidão do mundo ao som de Arctic Monkeys, depois do pastel da feira de quarta à noite
O desabafo de uma amiga, pegando o caminho da saída da cidade
Dedos batendo no volante, descoordenadamente, acompanhando o piano que tocava no rádio
Uma menina, sempre em paz, dormindo de boca aberta no banco de trás
Uma conversa mórbida com o carro ligado em meio à chuva fina, na frente do condomínio, cortada por um abraço seco
O desespero de uma mãe viajando com sua filha numa maca
O caminho escuro e mudo para o Adeus
A constatação, no caminho de volta da escola, de que moravam na avenida mais bonita da cidade
Revelações implícitas em meio a inúmeras viagens
Um homem chorando copiosamente, parado no acostamento, antes de tomar fôlego e prosseguir a viagem de volta
A decisão de qual faculdade fazer, em plena Marginal Tietê: um olhar de felicidade pura

O que mais importa não é o destino, e sim a estrada.
Aproveite a (absurdamente) boa memória que ainda lhe resta para guardar tais trajetos, tais momentos a portas fechadas.
O que mais importa é a jornada. Com ipês coloridos ou não.

Tenha isso em mente. Sempre. 

quarta-feira, 3 de junho de 2015

M,

Te escrevo hoje por preocupação. Não ache que seja por outro motivo além desse. Nas últimas semanas tenho te sentido diferente. Até poderia usar a palavra ‘distante’, mas só esse termo já acabaria com meu estoque de ironia. Não é mesmo? Aposto que você concorda. Afinal, estamos mais próximos do que nunca, e, veja só, mesmo assim, conseguimos nos separar o máximo possível.
Posso perceber o tempo moldando seu rosto no mesmo ritmo que as minhas olheiras crescem. Consigo notar suas lágrimas contidas, todas elas, e pra cada uma delas compro um maço.
Ultimamente, tenho fumado menos.
É incrível como me importo contigo. A cada pequena tragédia tua, percebo que uma partezinha de mim morre e fica impregnada, fibrosada, sem me abandonar. Me pergunto até quando serei funcional. Me pergunto se algum dia cheguei a ser.
Afinal, por todos esses anos, continuamos em mesmos rumos, em mesmos objetivos, em mesmas promessas. Mas é absurdamente doloroso perceber que esses rumos nunca se cruzam, como somos linhas tão infinitas e tão paralelas.
Essa ideia me persegue há meses, e confesso que foi ela que me motivou a sentar hoje e escrever: deus nos traçou paralelos. Somos retas, infinitas, indefinidas, que nunca se cruzarão. Essa geometria me traz palpitações todas as vezes em que nossos olhares se cruzam, dia após dia. Todas as vezes que te vejo passando e percebo que estou indo para a esquerda, e você pra direita. Todas as vezes que, em meio a esses encontros, nos reconhecemos cúmplices silenciosamente.
É uma pena que nossos breves solilóquios não revelem como você tem passado: sua cor preferida, suas noites indormidas, sua estante, seus porta-retratos. Por isso mesmo te escrevo. Porque apesar de tudo, me preocupo. Não posso afirmar que te admiro, simplesmente porque não te conheço mais.
Espero que me escreva de volta algum dia. E, lá do fundo da minha parte ainda funcionante, espero que ainda goste de vermelho, que ainda leia muito e que, agora, você acredite em Deus. Talvez algum dia Ele mude a disposição das retas das nossas vidas.
Com carinho,

M.