sábado, 11 de março de 2023

Figueira

 Você foi embora e nem fez questão de levar o resto das suas coisas. Seu piano está ali, no meio da sala, servindo de aparador e acumulando pó. Digo “seu” mesmo você tendo afirmado que o piano era “nosso”. Você trouxe da casa da sua mãe e disse que eu deveria voltar a tocar. Dentro da sua cabeça, você estava me dando um presente especial – o dom de voltar pra mim.

Não sei quem foi mais ingênuo: você, por tentar amar uma mulher que amou no passado, ou eu, por achar que conseguiria voltar a sê-la. Os meses que passamos juntos foram nostálgicos e isolados do mundo. Dentro da redoma que era o meu apartamento, você me ouviu tocar Chopin, releu Álvaro de Campos e bebeu (muito) conhaque. Digo “meu” mesmo você tendo trazido seus móveis. Preciso que seja “meu”, pois não tenho praonde ir depois que tudo acaba. 

Deixei o livro que eu te dei em cima do piano, para o caso de você vir buscá-lo. Eu escrevi aquela dedicatória há dez anos, mas consigo recitar cada palavra dela sem olhar. Acendi um cigarro e contemplei aquele quadro. A representação imagética do que seria meus próximos meses: restos empoeirados de um passado, restos do que foi, do que fui pra você. 

Dentro da sua cabeça sempre serei aquela garota. Mas conviver comigo te gerava angústia e culpa; ir embora era uma questão de tempo. 

Você ainda acredita: no meu retorno a mim, na cura pelo amor e a arte. Acho que você me deixou o piano justamente por isso. Queria compartilhar da mesma fé, queria me ver como você me via. Mas aqui o ar é rarefeito e as coisas são mais leves. Não há muito espaço para permanência e, de alguma forma, desde que você se foi, a redoma de vidro parece mais apertada. 

filha de Xangô

Você decide para onde ir seguindo o padrão da poeira dos seus livros, seu disco arranha na vitrola. Suas piadas e frases de efeito ecoam pelas mesmas paredes, pelo quarto vazio, dentro de um olhar que espera a pausa, a surpresa, o riso, a indignação. As mesmas referências, as mulheres na sua cama recebendo os mesmos toques. Tudo continua como antes. 

Por aqui as coisas também permanecem inalteradas. A náusea é mascarada pelo jejum, o abandono é neutralizado pelo conhaque, a dor precede o gozo. Nada disso é novo pra mim e, ainda assim, todas as noites, eu deito com a sensação de que meu peito é incapaz de segurar tanta dor: esse emaranhado disforme de angústias - minhas suas e das cidades inteiras. 

Tenho lutado contra o arrependimento desse encontro - a sucessão de acontecimentos que desponta nessa prosa sem desfecho. Admitir essa mágoa parece profanar momentos em que senti que a intuição me guiava, parece me contaminar com a narrativa que insiste em se repetir: eu, um homem que desaparece e um pedido de perdão nunca verbalizado.

Tenho barganhado com o tempo para que eu consiga seguir sabendo que a caneta irá deslizar no papel e confirmar o que já sei. Seus atos me descompassando, sua inconsequência me tirando o ar, minha presença minguando a cada domingo. Não quero seguir nesse expurgo incessante de sentimentos, a repetição do velho padrão que aplaca a sua, apenas a sua, dor. É muito fácil cair nesse espiral, quase sedutor, porque eu sei quem eu vou encontrar dentro dele. 

As dezenas de velas que acendi se derretem no pires, e eu nem sei mais se quero ajuda. Na maioria dos dias, sinto vontade de arreganhar seus cortes e depois beijá-los, costurá-los com minhas mandingas, secar suas lágrimas com as folhas do meu caderno. Parece injusto comigo mesma sentir tanta compaixão por você enquanto eu permaneço na minha rotina de pequenas (e eficazes) autodestruições. Tento equilibrar os pratos e terminar a história, mas o ponto final nunca será meu. As coisas ficarão como antes, sua velha angústia sendo expiada pelas suas palavras - não as que você escreve, mas as que você diz. 

Tudo continua como antes. Eu, dilacerada pela história que eu mesma comecei: a mulher que foge de ódios que a perseguem há uma década inteira. Você, tão machucado quanto, no seu eterno retorno particular: o menino abandonado num cesto, sendo redescoberto a cada curva do rio.

Peço ao seu deus para que alguém te acolha e te guarde. Tenho pedido por justiça e por sossego, e é isso que me impede de ser consumida por toda a raiva que você descarregou em mim. 

segunda-feira, 6 de março de 2023

Crisântemo

Você está tamborilando os indicadores no volante ao ritmo da música enquanto eu tento te observar sem virar a cabeça. Sinto medo de sugerir algo novo para ouvir - embora você mesmo tenha pedido. Ajudo a entrar na pasta do pendrive que você quer. A cadência preenche o carro e eu tento prestar atenção na letra, mas você não consegue parar de falar.

Você explica a origem daquele tipo de som, conta como achou aquele artista e porquê aquela letra nos pega tanto. Eu não quero saber daquilo tudo antes de escutar o álbum, preferiria ter minhas primeiras impressões sem nenhum prenúncio. Mas, durante o começo da terceira música, eu percebo que você está falando na primeira pessoa do plural. Não como eu "nós dois", mas como eu "nós, jovens, humanos sensíveis, amantes da poesia e cerveja barata".

Dentro daquele carro, somos parte de algo: eu, você, às vezes outro passageiro sonolento. Somos nós. E eu passo a terceira (e quarta) faixa me dando conta de que, naquelas quatro horas, há um sentimento que viaja conosco, pressurizado, cuidadosamente vigiado por mim. Tenho medo de dizer algo que estrague tudo, não quero me mover nenhum milímetro a mais, quero apenas apreciar esse momento.

Percebo, enfim, que consigo falar. Digo o que penso, conto histórias, compartilho minhas descrenças e reclamo que não leio nada há alguns meses. Pois, de fato, somos nós. Próximos, amigos platônicos, escritores e aspirantes a mudadores do futuro. Não há outro contexto em que eu consiga assumir esse papel - tanto na sua vida quanto na minha. Não há coragem suficiente em mim para que isso se prolongue além daquelas quatro portas. 

Há algo em você que me intimida profundamente, e há algo em mim que não luta contra isso. 

Quando paro de falar, a pasta está quase no fim. Você faz perguntas e parece genuinamente interessado. O pôr-do-sol na ponte para sobre seu rosto e eu sinto minha boca secar quando penso que gosto muito mais de mim quando estou com você.

Não era só sua presença. Era também a minha própria, flutuando sobre a estrada esburacada, que se embalava na batida do rap e dava um recado: eu estou viva.

Você olha brevemente pra mim e dá play na quinta faixa novamente. Eu comento que a música é muito triste e mórbida. Você assente e pergunta se eu conhecia aquela flor, e eu respondo que sim - minha família é uma grande apreciadora do dia de finados. Você ri, desconcertado. Ser intimidada pela sua aura não é um problema, mas há também a ânsia da reciprocidade, o desejo de te causar o mesmo sentimento. O máximo que consigo é o desconforto - mecanismo que usei durante toda essa década. 

Passo a última hora da viagem pensando no que te dizer para que você suba no meu apartamento, mas sei que não falarei nada. Irei apenas agradecer, me despedir de longe e voltar a ser apenas "eu". Verei sua silhueta pelos corredores durante a semana e acenarei discretamente. 

Anseio pela próxima viagem, até que tudo acontece: minha vida é pontuada por uma perda, e a sua continua como o planejado - como eu sempre imaginei. Só compreendo anos depois o que se passou naquela tarde. O prenúncio. As interpretações. Meus ossos vibrando a cada verso daquelas músicas. 

Nós, juntos, assistimos ao meu futuro por meio daquela faixa. Por meio da letra, da sua voz desconfortável contando sobre suas experiências com enterros e cemitérios, e, quando te deram a notícia, sei que você pensou a mesma coisa. Talvez eu precisasse daquele augúrio. Talvez eu precisasse daquele disco embalando o carro antes de viver a maior dor da minha vida. 

Depois disso, tivemos outras viagens. Dividimos outras preocupações e usamos a primeira pessoa do plural novamente. Mas, de alguma forma, aquele percurso ficou impresso em mim como se tivéssemos trocado segredos; e eu nunca mais consegui te olhar nos olhos. Nunca mais gostei de mim daquela maneira - tão crua e tão apaixonada. 

Hoje entendo o recado, o sinal que procurei por quase dezenove anos e não consegui enxergar quando precisei. A música. Você. Nós. A juventude que eu sempre invejei nos outros, mas não percebi que tinha.

Queria bater na sua porta e te dizer tudo isso. Confirmar se você sentiu o mesmo. Mas envelheci o suficiente para saber que perdi a chance. Se aquele dia foi o prenúncio do pior dia da minha vida; então, posso dizer que ter cruzado seu caminho foi o prenúncio da minha vida toda.

Não moverei um músculo para te ver de novo. Tenho muito medo do que vou sentir, mas penso nesse episódio frequentemente. Penso em você todos os dias. E no que poderia ter sido se eu tivesse continuado a gostar de mim. 

terça-feira, 24 de novembro de 2015

.Mariana

Não dormia há dias. Talvez porque sentia falta de ficar sozinho, talvez porque passava o dia ocupado – sendo adulto – e a noite era sedutora demais pra ficar na cama. Não que as companhias cotidianas fossem ruins ou sufocantes, só sentia falta da solidão de sua própria mente. Talvez até da paz.
Naquela noite suas análises nem eram sobre ele próprio – emprego, dinheiro, a casa nova com jardim, um cachorro não seria demais? – mas sobre o resto. Ele brincava com seu isqueiro, que mantinha escondido atrás de um vaso na varanda, respirando o vento úmido da chuva. Não tinha vontade de fumar (talvez ninguém notaria o cheiro), mas queria tomar alguma atitude para consigo.
O telefone tinha tocado as dez: era um velho amigo. Colega, talvez. Ele trocou algumas palavras, agradeceu a consideração por ter ligado e, desde então, estava ali, sentado no seu velho banco, decidindo o que faria com a informação.
Com seu clássico sorriso de canto, lembrou-se da mãe, que sempre o fazia rezar antes de dormir: dizia para rezar pela vó, que estava doente, pedindo saúde. Seria a solução? Uma batida de carro é considerada nesse caso de pedir saúde? Talvez deus não fosse assim tão pragmático, tão formal. Não importava, afinal, não sabia mais como pedir tais graças, – ou consertos – nem tinha certeza de que acreditava em Tais forças. Talvez devesse orar pelo seu sono e desistir daquilo. Se lamentar pouco adianta.
Ela havia feito uma ultrapassagem perigosa, às dez da manhã, naquele mesmo dia. O carro atingiu um caminhão. O motorista passava bem. Não havia nenhum dano a não ser o dela mesma. O colega havia ligado, com a voz inalterada, informando-o. Afinal, eram velhos amigos.
Vivia sempre na estrada. Sempre ocupada, sempre dirigindo de uma cidade pra outra, fazendo o que sabia fazer. Passava pouquíssimo tempo na cidade, gostava de manter os laços estreitos – mesmo com quem mais amava. Era feliz. Amava o que fazia, pelo menos. Era uma mulher bem sucedida, dessas que qualquer machista teria pavor – e os feministas também. Vivia sempre na estrada. Tudo o que ele lembrava era isso.
Acendeu mais uma vez o isqueiro. Assoprou. Pensou nos últimos doze meses corridos e conclui que a última vez que se encontraram tinha sido em abril. Um abraço, os clichês de sempre, as perguntas. Na época, não havia muitas novidades com ele. Com ela, o de sempre: muito trabalho, tinha conhecido uma pessoa incrível – seria ótimo se os três pudessem se reunir e conversar sobre qualquer dessas coisas de gente maluca. Tinha lido um livro ótimo, visto o último filme daquela franquia que ela amava.
Era daquelas pessoas que sempre têm do que falar, nunca focava nela mesma. Guardava a atenção pras tragédias – quesito que dominava – quando elas a afetavam significativamente. Quando seu pai trocou a família pela bebida, ela comprou uma vitrola e o chamou pra fumar uns cigarros e falou do ocorrido por dez minutos. Quando perdeu o emprego com que sonhava na adolescência, pediu conselhos e perguntou como andava a família. Quando seu irmão morreu, contou de todo o velório rindo, dentro do carro, pois tinha que ir embora no dia seguinte.
O céu clareou com um raio e ele pôde ver a varanda do prédio da frente: luzes de natal. O tempo tinha passado e mais uma tragédia tinha a devastado. Dessa vez consigo mesma, com seu próprio corpo, com sua própria vida. Ela estava internada numa cidade próxima, com sérios riscos. Ninguém sabia se iria ver a luz do próximo dia. Um trovão ecoou na varanda, ele pensou mais uma vez em deus.
Pensou em seus olhos secos, suas mãos sempre trêmulas, tentando explicar o que sentia com a morte do irmão e seu rosto vermelho rindo e desviando o assunto. Pensou na chuva fina caindo e o vidro do carro embaçado. Talvez, naquele dia, ele devesse ter um pouco mais de paciência, talvez não devesse ter ido embora tão cedo. Ela sempre prosperava perante o caos, ao vazio, mas uma muralha sempre tem suas rachaduras. E ele havia esquecido as dela.
Desistiu de pegar seu cigarro, fechou a vidraça da varanda, entrou. Usou o isqueiro pra acender uma vela – havia um pequeno altar com uma Santa Rita de Cássia na sala. Ouviu um barulho vindo do quarto e, rapidamente, guardou o isqueiro e o maço de volta no esconderijo. Abriu a porta devagar, adentrou as cobertas. Sentiu o (ainda pequeno) volume na barriga de sua mulher. ‘Você tava acordado?’ ela perguntou.
Ele fechou os olhos, fingindo um sono que não tinha há dias, sorrindo. Se fosse menina, ele já havia escolhido um nome.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

A Morte em três tempos

Ela está entrando no café, procurando um refúgio daquele frio, daquele Inverno. Pensa naquele dia de verão: chovia lá fora, os trovões ocultavam todo o barulho do cômodo, o piano assistia a tudo. Pedira ajuda, queria se livrar do desespero. Entrou, tomou chá, se secou, vestiu as roupas dele. Ele contou de sua vida, da faculdade, do seu luto eterno, da sua antiga família.
O nome da falecida mulher ele nunca mencionou, mas a filha se chamava Catarina. Ou Camila? Ela não lembrava mais tão bem.
Senta-se, pede um café e fica mentalizando aquela noite. Ele desligou a tv e tirou os óculos quando ela entrou. Ela pensou ter visto Mulheres na estante. Teve vontade de perguntar, mas ficou com vergonha (ou era Misto Quente? Era Bukowski?). Quando tirou a camisa dele, viu uma cicatriz grande em seu peito.
Fica pensando naquilo como se fosse a coisa mais importante a se fazer. Percebe que está começando a não se lembrar dos detalhes, dos mínimos, dos sons, do toque.
A única coisa que não tinha mudado naqueles 28 anos era sua (boa) memória. Disso ela não estava disposta a abrir mão.

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-Eu quero que você seja grande, Martina. Sei que você ainda não é crescida, nem nada, mas eu preciso que você se lembre disso, ok? Seja uma mulher extraordinária. Sei que você tem cinco anos, mas não se esqueça. Não seja comum.

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Ele está no aeroporto aguardando seu embarque. Observa todas as pessoas que passam por ele, inventa uma história pra cada uma delas. Entra num café e pede a bebida favorita de sua mulher. É tudo por ela. Seu coração anda acelerado há dias, não sabe se tomou a decisão certa em gastar todo aquele dinheiro numa viagem. As decisões que a gente toma inesperadamente geralmente são as certas. Certo? E se não?

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-Alguma hora a gente vê isso, sabe. Os pais viram pais a partir do momento em que desejam que seus filhos sejam melhores que eles. Eu desejei isso pro seu irmão e desejo pra você. As coisas são mais difíceis ainda pras mulheres – você é nova, mas um dia vai descobrir isso por si mesma. Estude, conquiste a sua independência e não deixe ninguém no seu caminho.

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Olha continuamente o celular. Ninguém vai ligar.
Ele perdeu os poucos amigos que fez durante toda sua vida para a faculdade, a falta de tempo, a residência, a gravidez de risco da mulher. Agora, não havia mulher nem filha. Não havia mais nada – nem dinheiro. Ele nunca tinha sido tão imprudente, sentia medo. Sempre teve boa vida, sempre teve uma poupança para emergências. Mas agora tudo estava zerado.
Era como um aviso, um sinal. Moacir nunca fora bom com intuições.

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Encostada na vitrine, ela olha para o céu nublado e pensa no quanto odeia aquele clima. Estava começando a odiar aquela cidade, aquela atmosfera, toda a História que ela carregava.
Ela nasceu num janeiro sequíssimo, e agora estava empacada no julho mais frio e chuvoso da sua vida.

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-O tempo passou tão rápido, né? Isso porque você ainda entrou na faculdade cedo. Você tem certeza que fez a escolha certa? É mais difícil pras mulheres que seguem essa carreira, você sabe. São mais três anos pra chegar ao seu objetivo, e ainda tem casamento, filhos... Meu maior sonho é ser avô, eu sempre disse. Não que você ainda não tenha conseguido nada. Você conseguiu muita coisa. Mas ainda falta algo. Eu sinto isso. Você não sente? Nem tudo nessa vida é profissão, Martina. A vida vai passar e você vai perceber que algumas coisas não foram normais.
Ainda há tempo.

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Ela paga a conta e sai. Está irritada por ter esquecido aquelas coisas e ainda se lembrar, entre outros exemplos, do rosto de Bernardo morto – ainda que visto de longe. Medicina nenhuma explica aquilo, ela pensa. Medicina nenhuma acha causa da tragédia crônica que era a vida de Martina. Não era a tragédia do tipo que comove, mas a que faz sentir pena. E ela odiava aquilo com todas as forças.

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Ele fecha os olhos e vê Catarina correndo, brincando. Queria que a filha fosse feliz, completa, inteligente. Queria que ela tomasse as próprias decisões, o próprio caminho. Queria que ela fosse feliz, comum, normal. Falta-lhe o ar. Não pode pensar naquilo agora, não ali.
Olha no relógio, vê que está na hora do embarque. E vai.

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-Olha, minha filha, eu achava que esse rapaz seria passageiro na sua vida. Já são quase cinco anos, e nada. Você diz sentir amor onde, aparentemente, há uma coisa estranha que nem sei nomear. Além de tudo ele é engenheiro, não entende a sua área. Não vai entender sua rotina. Tô ficando velho e nunca passei por nada parecido. As coisas eram diferentes antes.
Só quero o melhor pra você.

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Martina decide ir embora. Não há mais nenhum motivo pra ficar: nem a profissão, nem o amor (?), nem Moacir, nem família nenhuma. A vantagem da falta de tudo isso era uma estabilidade financeira que ela não tinha em anos. Iria pegar todo o dinheiro e partir. Procurar qualquer emprego que a agradasse minimamente, ler bons livros, conhecer bons homens.
E de preferência num lugar mais quente.

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Moacir entra no avião, aperta os cintos. Seu peito está pegando fogo. Pensa em Martina e na última noite deles. Pensa em seus espasmos, em seus olhos absurdamente tristes a despeito de qualquer contexto, em suas mãos trêmulas. Fecha os olhos e, sincera e profundamente, espera que seu coração pare naquele momento. 


terça-feira, 23 de junho de 2015

a insustentável virtude da memória.

Uma viagem até Assis, no banco da frente, observando que ‘o céu está mais baixo do que o normal’
Uma reflexão sobre a imensidão do mundo ao som de Arctic Monkeys, depois do pastel da feira de quarta à noite
O desabafo de uma amiga, pegando o caminho da saída da cidade
Dedos batendo no volante, descoordenadamente, acompanhando o piano que tocava no rádio
Uma menina, sempre em paz, dormindo de boca aberta no banco de trás
Uma conversa mórbida com o carro ligado em meio à chuva fina, na frente do condomínio, cortada por um abraço seco
O desespero de uma mãe viajando com sua filha numa maca
O caminho escuro e mudo para o Adeus
A constatação, no caminho de volta da escola, de que moravam na avenida mais bonita da cidade
Revelações implícitas em meio a inúmeras viagens
Um homem chorando copiosamente, parado no acostamento, antes de tomar fôlego e prosseguir a viagem de volta
A decisão de qual faculdade fazer, em plena Marginal Tietê: um olhar de felicidade pura

O que mais importa não é o destino, e sim a estrada.
Aproveite a (absurdamente) boa memória que ainda lhe resta para guardar tais trajetos, tais momentos a portas fechadas.
O que mais importa é a jornada. Com ipês coloridos ou não.

Tenha isso em mente. Sempre. 

quarta-feira, 3 de junho de 2015

M,

Te escrevo hoje por preocupação. Não ache que seja por outro motivo além desse. Nas últimas semanas tenho te sentido diferente. Até poderia usar a palavra ‘distante’, mas só esse termo já acabaria com meu estoque de ironia. Não é mesmo? Aposto que você concorda. Afinal, estamos mais próximos do que nunca, e, veja só, mesmo assim, conseguimos nos separar o máximo possível.
Posso perceber o tempo moldando seu rosto no mesmo ritmo que as minhas olheiras crescem. Consigo notar suas lágrimas contidas, todas elas, e pra cada uma delas compro um maço.
Ultimamente, tenho fumado menos.
É incrível como me importo contigo. A cada pequena tragédia tua, percebo que uma partezinha de mim morre e fica impregnada, fibrosada, sem me abandonar. Me pergunto até quando serei funcional. Me pergunto se algum dia cheguei a ser.
Afinal, por todos esses anos, continuamos em mesmos rumos, em mesmos objetivos, em mesmas promessas. Mas é absurdamente doloroso perceber que esses rumos nunca se cruzam, como somos linhas tão infinitas e tão paralelas.
Essa ideia me persegue há meses, e confesso que foi ela que me motivou a sentar hoje e escrever: deus nos traçou paralelos. Somos retas, infinitas, indefinidas, que nunca se cruzarão. Essa geometria me traz palpitações todas as vezes em que nossos olhares se cruzam, dia após dia. Todas as vezes que te vejo passando e percebo que estou indo para a esquerda, e você pra direita. Todas as vezes que, em meio a esses encontros, nos reconhecemos cúmplices silenciosamente.
É uma pena que nossos breves solilóquios não revelem como você tem passado: sua cor preferida, suas noites indormidas, sua estante, seus porta-retratos. Por isso mesmo te escrevo. Porque apesar de tudo, me preocupo. Não posso afirmar que te admiro, simplesmente porque não te conheço mais.
Espero que me escreva de volta algum dia. E, lá do fundo da minha parte ainda funcionante, espero que ainda goste de vermelho, que ainda leia muito e que, agora, você acredite em Deus. Talvez algum dia Ele mude a disposição das retas das nossas vidas.
Com carinho,

M.